Algumas feridas nunca saram

Algumas feridas nunca saram

Pensamentos da jornada de Frodo em O Senhor dos Anéis.

“– Mas – disse Sam, com as lágrimas brotando em seus olhos – achei que o senhor também ia desfrutar o Condado, por muitos e muitos anos, depois de tudo o que fez.

– Eu também já pensei desse modo. Mas meu ferimento foi muito profundo, Sam. Tentei salvar o Condado, e ele foi salvo, mas não para mim. Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem que desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las. (…)”

A parte do texto acima é de Frodo no último livro de O Senhor dos Anéis: o Retorno do Rei. Confesso que chorei com esta parte no filme e principalmente no livro.

“Não é justo”, falamos tão indignados por Frodo ter que partir, pois ele lutou tanto! Carregou o fardo do Anel, por que, justo agora na hora que ele pode ser feliz tem que partir?

Só que ao analisamos toda a trilogia lembramos que Frodo foi salvar o Condado e as pessoas que tanto amava. Foi por elas, nunca para ele.
Muitos fardos levamos sozinhos. Podemos ter pessoas que nos ajudam, nos carregam e nos façam ter a força necessária para seguir adiante. Mas a dor e as feridas são individuais. Mesmo que um amigo caminhe ao meu lado eu vou cair e me machucar sozinho.

O que vejo de belo e uma lição de vida nesta obra de Tolkien é que o mais simples da Terra Média, um Hobbit, escolheu carregar o fardo até as terras inimigas, enquanto os mais poderosos simplesmente brigavam entre si, para quando ele diz “eu levarei”, todos se calarem e se sentirem envergonhados.

Frodo lutou sem ser um guerreiro. Caminhou pelo caminho da morte, do desespero e sem ser um herói, chegou até as Montanhas. E lá, no final de tudo, ele caiu.

Ficou tentado pelo desespero do anel. Nas portas de entrada do Inferno, Frodo não aguentou. E isso torna este livro tão precioso (desculpem o comparativo com Gollum).

Mas havia alguém ali naquele momento que ainda acreditava em Frodo. E este era Sam. Costumo dizer que amigo é aquele que não vai até o inferno com você, mas evita que você chegue lá.

E foi exatamente isso que Sam fez. Bravamente ele acreditava em quem Frodo era. Que aquele era apenas um momento de desespero de seu mestre e amigo. Que as palavras de ódio, tristeza e tantas outras que Frodo jogava na cara de Sam, não eram dele. Era apenas o momento, aquele derradeiro que sofremos por não aguentar mais o fardo.

Sam foi o companheiro e o amigo. Mas a jornada de Frodo chegou ao fim. Ele e Sam conseguiram destruir o anel. A paz voltou. E é assim em muitas coisas de nossas vidas. Lutamos tanto por algo para descobrirmos no final que não era por nós e sim por outros. Quantas vezes alguém luta por um amor para descobrir que no final das contas era apenas para ensinar a outra pessoa o valor deste sentimento? Porque lutou tanto por aquela pessoa, para que ela simplesmente ficasse com outra. Mas ela, aquela por quem tanto lutou, aprendeu o valor.

Também são as lutas pelos filhos. Pais lutam décadas para trazer o de melhor, sofrem, choram escondidos e um dia eles simplesmente se vão.
Não é justo. É isso o que gritamos. Sim, concordo. Mas o que é justo? Amarrar a outra pessoa?

De forma alguma. Isto nos torna o vilão da história. Tudo pelo que lutei, pode não ter servido para mim, mas serviu para alguém.

E assim é no amor, na amizade, no trabalho. Assim é na vida.
O importante é não perder a fé. Saber o significado da boa luta. Conhecer os limites, pois desta maneira poderemos ultrapassa-los.

E principalmente, que toda jornada, por mais que tenha alguém ao lado, será sempre solitária e doída. Porque guardamos as dores dentro de nós. O fardo é nosso, não dos outros. E assim, no final de nossa história, apenas deixar o livro aberto para que outros o continuem.

Colocar a mão no peito e saber que “algumas feridas nunca saram”. Mas que sua vida, foi realmente aproveitada ao máximo. E desta maneira, outros poderão ler sua história e conta-la para outras.

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