Vamos falar de sexo? E também de “Festival PopPorn”

Vamos falar de sexo? E também de “Festival PopPorn”

Século XXI, mais precisamente agosto de 2019. Em algum lugar deste país, estado e cidade, alguém está pensando em “sexo” ou fazendo.

Alguns planejam aquela balada para o final de semana, um jantar a dois ou com mais, para que no final, tudo termine em sexo.

Parece simples e algo extremamente normal. Só que não é.

No Brasil o tema sexo parece ser um tabu. Pais fogem do assunto e adotam a postura de que os filhos são muito novos para saberem do assunto e quando forem adultos irão entender, jogando para eles toda a responsabilidade de aprenderem sozinhos e muitas vezes erroneamente, sobre a sua sexualidade. E quando erram, estes mesmos pais jogam na cara de como puderam ser irresponsáveis.

Outro aspecto, são das escolas que praticamente jogaram no lixo matérias sobre o assunto. Muitas nem mesmo podem ser abordadas porque são assuntos para se discutir em família, mas na família não se conversa. E estes jovens crescem sem conhecimento algum do que é sexo, Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSt´s), sua sexualidade, higiene, entre outras, e como seus pais continuam neste ciclo que sexo não se discute, assim como política, religião e futebol.

E isto também tem sido um erro da política que interfere em tantos assuntos da família, mas quando é sobre sexo, religiosamente prefere jogar com a religião, pois continuamos na idade média, quando a mesma dizia o que podia e não falar, aprender e discutir na Nação. E se é sexo, é pecado.

De qualquer forma, a indústria do sexo é gigante. Mesmo que tenha nascido como uma forma de criticar as autoridades religiosas e políticas, com o passar dos anos, ganhou outras dimensões, principalmente artísticas.

E não estou falando sobre filmes. O nú e suas outras formas de arte através de fotografias, pinturas e também dos longas. Lógico que alguns até atrapalham, pois parece que o homem tem a obrigação de ser uma máquina sexual e toda mulher com um estalar de dedos já está fazendo sexo.

De qualquer forma, o sexo está no nosso cotidiano, através de perfumes, roupas, música, filmes, mesmo os dramas entre tantos outros.
Só que mesmo assim, no Brasil do século XXI, o sexo ainda é banalizado. Por que?

Nem todas as respostas podem agradar as pessoas, pois elas são opiniões. E conversamos com o Marcelo D’Avilla, um dos organizadores do Festival PopPorn, evento anual que acontece na cidade de São Paulo, de 16 a 18 de agosto, que falou um pouco sobre o assunto.

Saiba mais sobre o Festival PopPorn

No evento acontecem workshops, exibição de filmes, entre outros assuntos.

Confira abaixo a entrevista:

Casal Descomplicado: Por que o Festival PopPorn foi criado?

Marcelo D’Avilla: O PopPorn foi criado por Suzy Capó pela sempre e ainda urgente discussão e positivação da sexualidade e do sexo. Suzy foi uma das cabeças por trás de muitos festivais contestadores, Suzy buscava criar espaços onde havia uma lacuna na sociedade. E mais do que nunca, a sexualidade, o sexo, gênero, identidade e tudo que se amarra sobre os corpos e seus desejos precisa de um local onde de alguma forma possamos nos educar. Espaços de discussão, de encontro com outras dúvidas, mas principalmente de afeto, reconhecimento e identidade. Validar a sexualidade, ou como Suzy falava, Sexualidade Positiva, no sentido de que o sexo é natural e positivo nas nossas vidas e deve ser conversado abertamente para que diversos outros temas sociais sejam corrigidos e reconduzidos.

Dessa forma o festival foi criado com um leque de itens, sempre intimista o festival acontece com exibição de filmes sobre sexualidade, pornografia e documentários; também há mesas de debate, workshops e exposição de arte. Além de festas, claro, um festival tem que festejar algo, e aqui a celebração dos corpos rola na nossa PopPornParty, festa do festival, que além de ser parte da programação do evento anual, também acontece mensalmente na capital como forma de angariar fundos para o festival.

Casal Descomplicado: O evento sofre com preconceito da indústria, principalmente com a imprensa em geral e na hora da busca de patrocínios?

Marcelo D’Avilla: O evento sofre de todas as maneiras, mas principalmente pela falta de investimento, como já praticamente não há iniciativas públicas que permitam a discussão e a proliferação da educação sexual devida na grade do brasileiro, as empresas privadas também seguem o mesmo movimento. Poucas foram as vezes que empresas privadas toparam falar do tema, fazer ação conosco ou patrocinar o evento. Nem mesmo empresas no segmento de preservativos, ou sexshops, ou outros veículos que estão na indústria sexual, topam apoiar um evento do tipo, talvez a educação assuste.

Casal Descomplicado: Qual a diferença para você da mentalidade da sociedade brasileira, com a latina, norte americana, europeia, ou seja, com o mundo? O Brasil está muito atrasado quando o assunto é sexo?

Marcelo D’Avilla: Não da pra fazer um comparativo, pois as histórias são diferentes e tudo muda de estado pra estado ou região para região, seja isso em qualquer país, imagine falar de sexo em países onde a menstruação ainda é vista como algo vergonhoso, locais sem nem ao menos saneamento básico. Muitos assuntos derivam de parte para parte do mundo, a sexualidade em São Paulo é algo totalmente diferente do que em qualquer outro estado do Brasil, cada um tem sua particularidade, sua aceitação, os corpos são aceitos de formas diferentes em todos os estados do Brasil. Por isso este ano o tema é falar sobre os Pecados do Capital, e por ser um ano 9, definimos 9 problemas da sociedade que estão atrelados diretamente com a sexualidade e o dizer sobre os corpos. Começando por Corrupção, e os cortes para uma devida educação, Fé, Feminicício, Binarismo, Racismo, Gordofobia, Homofobia, Transfobia e Descarte e Consumo dos corpos. O Brasil precisa muito e urgente de educação, isso podemos afirmar, independente de comparações com outros países e suas culturas.

Casal Descomplicado: Para vocês, como a conversa sobre sexo pode ser debatida de maneira sadia com a família? Qual a idade que os pais podem conversar com seus filhos sobre o assunto? A escola tem um papel importante na educação sexual?

Marcelo D’Avilla: O sexo é diferente de sexualidade, que por sua vez é diferente de gênero, e de identidade. Todos estes temas devem aparecer na vida em sua total educação. Mas todas deveriam ser baseadas no afeto. Portanto primeiro deixar a identidade da criança fluir, sem se basear nos seus genitais seria muito importante, pra começar a falar sobre gênero. E então a sexualidade, como os corpos são na sociedade, como as relações, sejam elas hétero ou homo ou em suas inúmeras diferenças são baseadas no afeto. Isso pode ser entendido por qualquer um ao longo de sua infância. O sexo mesmo vai surgir apenas na adolescência, quando houver o desejo, e aí então uma educação em casa somada a escola, em casa para desmitificar os corpos de forma afetuosa, os sentimentos, o apoio emocional. E na escola o apoio “técnico”, fisiologia, estruturas físicas, corpo, gravidez, IST’s (Infecções Sexualmente Transmissíveis). Para que o adulto venha ser alguém instruído.

Casal Descomplicado: Falando sobre o evento: Para qual público ele é mais voltado? Para aqueles que já estão acostumados a frequentar? Ou o amador e curioso também pode?

Marcelo D’Avilla: O evento é para todxs, literalmente todxs. Claro que há uma censura de 18 anos para o evento. O evento deve ser frequentado por quem já o conhece, para quem não o conhece, para quem tem curiosidade, para quem também não tem curiosidade. Os temas, os filmes, tudo pode ser bastante enriquecedor para qualquer pessoa. O PopPorn foi feito pra todo mundo que transa, e também pros que não transam!

Casal Descomplicado: A primeira vista, as festas como do Cinemão, parecem muito hard para quem jamais foi em algo assim e gostaria de ir sozinho ou até mesmo acompanhado. Ele se sente pressionado a ter que entrar e fazer algo. Como funcionam estas festas para quem nunca foi?

Marcelo D’Avilla: As festas são festas, não são surubões, embora os surubões são bem vindos pra rolar na festa, o evento é para todos, mesmo os que não querem tirar a roupa, e apenas dançar, ou mesmo apenas dançar nu. O evento é amigável, pra cima, com clima de festejo dos corpos. O lugar de positivar a sexualidade e a liberdade dos corpos. E caso estes corpos, consensualmente quiserem transar, eles podem. Esse sexo pode rolar onde eles quiserem na festa, em locais mais escurinhos ou até no meio da pista. Tudo é permitido, sendo com respeito ao próximo, tudo vale. As festas são coloridas, tem quem vem montada de fetiche, de drag, pelado, de cueca, de calcinha, vestido inteiro, só de máscara, o clima é zero hard.

Casal Descomplicado: O que os visitantes podem esperar do evento deste ano?

Marcelo D’Avilla: Um evento intimista, para aquecer esse Agosto, filmes de mais de 11 países, novidades de diretores incríveis como Emilie Jouvet e Bruce La Bruce, debates sobre HIV, workshop de Shibari (métodos de amarrar x parceirx), exposição de arte erótica, Cabaré de abertura, PopPornParty com Clarice Falcão, e muito mais coisinhas, corre pro site e confere programação completa e adquire os convites, apoie o evento, divulgue pros amigos, divulgue pra aquela amiga que busca se entender melhor, pra um brother que precisa ouvir umas coisas diferentes, vamos juntos resgatar o brilho da sexualidade e jogar uma luz em nossos corpos e nossos desejos juntos.

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